Homem morre após receber rim com vírus da raiva — o 4º caso em 50 anos.
Homem morre após receber rim com vírus da raiva — o 4º caso em 50 anos.
WhatsApp: Grupos Estaduais | Raiva transmitida por transplante de rim mata receptor nos Estados Unidos da América em caso raro.
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O início: um gambá, uma canela e uma decisão equivocada
James Martin, de 59 anos, morava numa propriedade rural em Idaho. Um gambá se aproximou e o arranhou na canela enquanto ele tentava proteger um filhote de gato. Como acreditou não ter sido mordido, não procurou atendimento médico. Meses depois, ele estava morto — e levou consigo um carteiro aposentado que esperava por um rim novo.
Cerca de cinco semanas depois, o quadro mudou rápido. Martin começou a ter alucinações, dificuldade para andar e engolir e rigidez na nuca. Dois dias após o início dos sintomas, desmaiou — provavelmente vítima de uma parada cardíaca — e foi levado ao hospital inconsciente.
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Martin morreu sem que a raiva fosse diagnosticada. A família acreditava que a causa eram problemas cardíacos graves. "Não tínhamos ideia", disse Kim Martin, sua viúva, ao canal Scripps News, após saber da infecção.
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A doação e o detalhe que passou despercebido
Após a morte encefálica de James Martin, seus órgãos e tecidos foram destinados a transplantes. Durante o processo de doação, a família informou os médicos sobre o arranhão do gambá. O detalhe foi registrado — mas não foi tratado como risco suficiente para impedir os procedimentos.
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Biópsias foram realizadas nos dois rins antes do transplante. Somente depois que o receptor adoeceu é que essas amostras foram reanalisadas. O tecido do rim não transplantado confirmou a presença do vírus.
O receptor: 51 dias de espera e uma morte em poucos dias
Barney Kurowicki, de 76 anos, carteiro aposentado, recebeu o rim esquerdo de Martin num hospital em Toledo, Ohio. Estava otimista com a cirurgia.
Cerca de 51 dias após o transplante, os primeiros sintomas apareceram: tremores severos, fraqueza nos membros, confusão mental acelerada e hidrofobia — o medo de água característico da raiva. O quadro evoluiu de forma avassaladora. Kurowicki morreu em poucos dias.
Exames confirmaram o vírus da raiva no receptor. A autópsia identificou o mesmo tipo de cepa encontrado em morcegos — a mesma linhagem presente no gambá que havia arranhado Martin semanas antes.
As outras três pessoas que receberam tecidos do mesmo doador
A investigação dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA identificou que três outras pessoas também receberam tecidos de James Martin — córneas, utilizadas em enxertos oculares.
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Os enxertos foram removidos cirurgicamente. Uma das três pessoas testou positivo para o vírus da raiva. Todas receberam profilaxia pós-exposição — vacina e imunoglobulina antirrábica — e nenhuma desenvolveu sintomas da doença.
O contraste entre os desfechos é claro: os receptores de córnea sobreviveram porque o diagnóstico chegou a tempo e o tratamento foi iniciado antes do vírus atingir o sistema nervoso central. O receptor do rim não teve essa janela.
Por que a raiva é quase sempre fatal após os sintomas
A raiva tem uma das maiores taxas de letalidade entre as doenças infecciosas conhecidas: próxima de 100% uma vez que os sintomas neurológicos se instalam. O vírus percorre os nervos periféricos até o cérebro — e quando chega lá, o tratamento disponível raramente é eficaz.
A única exceção documentada é o Protocolo de Milwaukee, uma abordagem experimental que induziu coma profundo em pacientes. Os resultados são controversos: pouquíssimos sobreviventes foram registrados em todo o mundo com esse protocolo, e a maioria com sequelas graves.
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A dificuldade adicional no contexto de transplante é o período de incubação variável: de poucos dias a mais de um ano. Isso torna virtualmente impossível prever o risco com base apenas no tempo transcorrido desde a possível exposição do doador.
O que torna esse caso tão raro — e por que ele muda protocolos
Desde 1978, quatro doadores de órgãos infectaram ao total 13 receptores com raiva nos Estados Unidos. Dos 13, sete morreram — todos os que não receberam tratamento preventivo a tempo. Os outros seis sobreviveram após profilaxia.
A raridade explica, em parte, por que a raiva não integra a triagem padrão de doadores. Menos de dez pessoas morrem por raiva nos Estados Unidos por ano. Mais de 3.500 animais testam positivo para o vírus anualmente no país — mas a transmissão entre humanos é tão incomum que o sistema de saúde não a tratava como ameaça nos protocolos de doação.
David McCormick, médico do Escritório de Segurança de Sangue, Órgãos e Outros Tecidos do CDC, classificou a situação com precisão: "Este é um evento muito raro. O transplante de órgãos nos Estados Unidos é muito seguro."
O que muda agora: a discussão sobre protocolos
O caso levou autoridades sanitárias americanas a discutirem mudanças nos critérios de avaliação de doadores. A revisão em curso aponta para três pontos concretos:
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Primeiro: qualquer relato de contato com animal silvestre — arranhão, mordida ou exposição — nas semanas anteriores à morte do doador deve ser tratado como dado relevante para triagem de raiva.
Segundo: sintomas neurológicos de progressão rápida no doador, mesmo sem diagnóstico confirmado, precisam acionar investigação específica antes da liberação dos órgãos.
Terceiro: quando há suspeita de exposição em receptor após o transplante, a remoção dos tecidos e o início imediato da profilaxia são determinantes para o desfecho — como demonstrou o contraste entre o receptor do rim e os receptores de córnea neste caso.
O episódio não invalida a segurança dos transplantes. Confirma, porém, que o detalhe mais improvável — um arranhão numa propriedade rural, não reportado como risco — pode ser o elo que falta numa cadeia trágica.
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Autor: Samuel Camêlo.
Fonte: JASB - Jornal dos Agentes de Saúde do Brasil - www.jasb.com.br.
Edição Geral: JASB.
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