Agentes de Combate às Endemias morrem aos 55 anos — e a Fiocruz prova que o fumacê tem culpa.
Veneno no trabalho, doença em casa: o que a Fiocruz descobriu sobre quem opera o carro do fumacê. — Foto: JASB.Agentes de Combate às Endemias morrem aos 55 anos — e a Fiocruz prova que o fumacê tem culpa.
WhatsApp: Grupos Estaduais | Fiocruz confirma: o fumacê está adoecendo e matando os Agentes de Combate às Endemias. Leia esta reportagem e acesse ao vídeo, no final.
--
-ad52
Por seis anos, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) acompanharam 7.400 Agentes de Combate às Endemias em todo o Brasil. O resultado é perturbador: centenas desses profissionais desenvolveram doenças graves diretamente ligadas ao contato diário com as substâncias químicas utilizadas no Combate às Endemias.
O estudo foi apresentado em audiência pública na Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP/Fiocruz), em Manguinhos, Rio de Janeiro.
O que o estudo encontrou no sangue e no corpo desses trabalhadores
A pesquisa coordenada pela doutora Ariane Leites Larentis, pesquisadora do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH/ENSP/Fiocruz), registrou alterações graves em trabalhadores que aplicam fumacê, raticida, calda e demais substâncias no Combate às Endemias.
--
-ad4
Durante a audiência, a pesquisadora foi direta: "São venenos. A gente chama de venenos porque eles são agrotóxicos." Entre as alterações identificadas nos profissionais avaliados estão:
💠 Alterações hematológicas — comprometimento das células do sangue por exposição química prolongada;
💠 Alterações neurológicas — danos ao sistema nervoso associados à inalação e ao contato com inseticidas organofosforados;
💠 Lesões no DNA — dano genético documentado em trabalhadores com histórico de exposição continuada;
💠 Alterações imunológicas — enfraquecimento do sistema de defesa do organismo, com comprometimento severo em grande parte dos avaliados;
💠 Resíduo de DDT no sangue — metade da amostra testada apresentou o pesticida banido no Brasil há 30 anos, revelando contaminação acumulada ao longo de décadas.
VEJA TAMBÉM:
As doenças que estão matando esses profissionais
Os dados do estudo da Fiocruz não ficam no campo das alterações laboratoriais. Eles se traduzem em doenças concretas, internações e mortes. Pesquisa da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), publicada em agosto de 2025, analisou 216 mortes de Agentes Comunitários de Saúde no Rio de Janeiro entre 2010 e 2024 e revelou que 60% delas poderiam ter sido evitadas.
Os ACE morrem, em média, aos 55 anos — 21,6 anos antes da expectativa de vida da população brasileira, fixada em 76,6 anos pelo IBGE em 2024. Entre as doenças identificadas pelo estudo da ENSP/Fiocruz estão:
💠 Doenças cardiovasculares e hipertensão arterial;
💠 Doenças respiratórias — responsáveis por 39% das mortes entre os ACE analisados;
💠 Depressão e outros transtornos de saúde mental;
💠Câncer — identificado em 15% das mortes, diretamente associado à exposição a agrotóxicos cancerígenos.
--
-ad5
O problema que vai para além do trabalho — e chega em casa
Um dos pontos mais preocupantes debatidos na audiência pública foi a contaminação doméstica. Os Agentes de Combate às Endemias, em muitos municípios, voltam para casa com as mesmas roupas usadas durante a aplicação dos produtos químicos.
Sem protocolos de troca e lavagem nos locais de trabalho, os resíduos de agrotóxico chegam às famílias desses profissionais. A lógica é simples e aterrorizante: o veneno que entra no organismo do trabalhador durante o dia volta com ele para dentro de casa à noite.
O EPI que falta — e a lei que ainda não chegou
A audiência pública reuniu pesquisadores, deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e representantes de sindicatos de trabalhadores. O deputado Carlos Minc, presente no evento, afirmou que "muito provavelmente serão necessárias novas leis para proteger esses trabalhadores e também para banir alguns produtos químicos."
As pesquisas da Fundação Oswaldo Cruz sobre a morte antecipada de Agentes de Saúde é um verdadeiro choque para a Saúde Pública Brasileira. — Foto: JASB.com.br.Existe um projeto de lei em andamento na Alerj que prevê a obrigatoriedade do fornecimento de equipamentos de proteção individual (EPI) para esses profissionais. Entre os pontos debatidos como urgentes estão:
💠Obrigatoriedade do fornecimento de EPI completo — incluindo roupas especiais que devem ser lavadas no próprio local de trabalho, não na residência do profissional;
💠 Revisão dos produtos químicos autorizados — com substituição periódica dos inseticidas diante da resistência crescente dos mosquitos;
💠 Inclusão dos danos ocupacionais como critério legal para a Aposentadoria Especial dos ACE;
--
-ad9
💠 Banimento formal de substâncias já identificadas como cancerígenas e neurotóxicas no protocolo de Combate às Endemias.
A ciência que sustenta a urgência da PEC 14
A pesquisadora Ariane Larentis foi precisa ao apontar o problema estrutural: "O que a gente está vendo é um processo de longa exposição de um modelo que a gente utiliza no Brasil, que é do estado, de combater endemias não da forma com que deveria ser — eles indo nas casas, ensinando a população como fazer o combate das doenças."
O estudo defende o abandono progressivo dos produtos químicos em favor da educação em Saúde Pública. E os dados são a base científica mais sólida já produzida para justificar a aprovação urgente da PEC 14/2021, que prevê Aposentadoria Especial aos 50 anos para mulheres e 52 anos para homens com 25 anos de exercício na função.
Quem combate a dengue também precisa ser protegido
O Brasil exige que seus Agentes de Combate às Endemias enfrentem venenos, sol, risco biológico e contaminação química para proteger a população. Em troca, oferece salário próximo ao mínimo, EPI incompleto e uma aposentadoria que ainda não existe na prática.
--
-ad8
A Fiocruz fez sua parte: produziu evidência científica robusta e irrefutável. Agora, o que falta é vontade política para transformar esses dados em legislação que proteja quem está na Linha de Frente da Saúde Pública.
Acesse ao vídeo (direto no Youtube):
Matérias Bônus:
Autor: Samuel Camêlo.
Fonte: JASB - Jornal dos Agentes de Saúde do Brasil - www.jasb.com.br.
Edição Geral: JASB.
Encaminhamento de denúncia ao JASB: Acesse aqui.
O jornalismo do JASB.com.br precisa de você para continuar marcando ponto na vida das pessoas. Compartilhe as nossas notícias em suas redes sociais!
--
-ad9





Faça o seu comentário aqui!